
De alguma forma – dentro de mim – a mudança acabou afetando a minha autoestima. Talvez ela ( a autoestima) nunca tenha sido sólida o suficiente para enfrentar uma mudança tão “brusca” quanto esta.
Meu cabelo é naturalmente cacheado, porém desde os 13 anos eu procurava mantê-lo liso com diversos produtos químicos e chapinha. No entanto, num dado momento da minha vida decidi parar de ferir o meu cabelo (na verdade, estava a ponto de ficar careca). Foi então que aparentemente as coisas começaram a mudar…
Há mais de um ano eu cortei o meu cabelo. Antes disso o meu cabelo vinha de um longo período sem o contato com produtos químicos. Por dois anos não fiz nada nele, somente chapinha. Porém, em meados do ano que se passou me vi totalmente exausta (ou cheia de preguiça) de escovar o cabelo a cada vez que o lavava. Eu costumava levar de duas a três horas fazendo chapinha nele. Um dia o cansaço dessa rotina, chegou ao seu ápice, passei esse tempo médio cuidando do meu cabelo e uma hora depois ele estava totalmente armado como se não tivesse feito nada nele. Foi então que me revoltei e resolvi não perder mais tanto tempo fazendo chapinha e deixá-lo, enfim natural. Nesse período, o meu cabelo ainda tinha resquícios de produtos químicos, ele estava crescendo, mas ainda havia pontas lisas que o fazia ficar com duas texturas simultâneas. Acredito que tudo isso foi mexendo aos poucos com a minha autoestima e com o jeito que me enxergava diante do espelho. Confesso que no início estava otimista.
Em meados de março pedi que a minha irmã cortasse as pontas lisas do meu cabelo ( mas, não fiquei satisfeita com o resultado). Meu cabelo estava ferido, maltratado. E eu? Eu queria que ele fosse o que eu queria que ele fosse. A verdade é que depois dali, não tiveram muitos dias em que me senti feliz ou satisfeita com ele. Cada vez que me olhava no espelho ou em fotos gostava menos de como me via com o meu cabelo. Não estava satisfeita com o meu cabelo, mas ao mesmo tempo não me conformava com essa situação. “Esse é o meu cabelo, eu quero amá-lo”, “ele faz parte de mim, não posso e não vou aceitar este tipo de pensamento” , “ o meu cabelo não me define, e sim o que está dentro de mim”, eu pensava.
Aos poucos, fui deixando o amor que tinha por mim morrer. Mas isso não começou com o desencadeamento desta mudança. A minha autoestima já estava frágil há algum tempo, mas só me dei conta disso quando me vi longe de relacionamentos tóxicos – não entendi a falta subta desses relacionamentos em minha vida, somente agradeço a Deus por saber o que é melhor para mim – que nutriam em mim a falta de interesse por mim mesma. Eu buscava sempre me ver de acordo com as perspectivas alheias e esquecia de me interessar por mim, de me amar, de olhar para mim. Eu vivia de migalhas daquilo que o olhar de interesse do outro via através de mim. Meu ego vinha se alimentando, ele foi posto em um pedestal, se sentia cheio de si, no entanto, o meu amor próprio definhava. Quando ao olhar do outro o brilho do novo se dissipou me tornei apenas uma folha jogada a qualquer vento. Como uma folha qualquer de outono fui descartada. Me senti nada. Isso só piorou enquanto continuava a nutrir dentro de mim a falta de amor e interesse por mim. Por muito tempo, deixei de ser eu mesma com medo do que os outros pensariam ao meu respeito e perdi a espontaneidade de viver.
Eu sei que tudo parece girar em torno do amor próprio e de como eu me tornei desinteressante para mim, mas gostaria de deixar claro, que não considero ninguém tão culpado quanto eu. Eu tenho alguma culpa. Eu tenho culpa.
O que eu posso dizer? Geralmente se espera que todo texto apresente uma conclusão ou solução, mas admito este não terá um. O que tenho tentado fazer é entender os meu conflitos internos ( com a maravilhosa ajuda de Deus, é claro ) e sempre que não me sinto bem comigo mesma ( com a minha imagem diante do espelho) procuro dizer a mim mesma que “ não é porque hoje eu não me sinto bonita que este pensamento me defina, o que de fato me define é o olhar de Deus sobre mim”, pensar assim tem me ajudado. Existem dias em que amo o meu cabelo, em que me acho bonita, mas há dias em que não me sinto assim. Me sinto feia, na verdade, mas não tenho permitido que esse “sentir” me defina.
De certo modo, tenho percebido em mim um jeito imaturo para lidar com as consequências impensáveis das incertezas do futuro. Tenho certeza que todo esse conflito me trará maturidade se eu estiver disposta a lidar com ele.