Há nessa estação do ano, chamada inverno, algo que me atrai a querer fugir dela. Existe escassez externa no inverno, essa escassez não é também interna. A sequidão da terra e a atmosfera fria que nos rodeia traz a certeza de que esse tempo parece não ter mais fim. Embora os dias sejam mais curtos a escuridão chega depressa roubando-nos o doce calor do sol.
Todas as certezas que carregava na última primavera parecem agora tão sem sentido. Tenho a impressão de que apostei as minhas fichas em coisas tão vazias e sem sentido e que me esqueci do que realmente importa. Me prostrei diante de deuses que eram cegos e mudos e não podiam me livrar de meus inimigos. Agora, percebo a mim mesma tendo que encarar uma nova estação com as incertezas tão aparentes diante de uma ferida que sangra sem parar.
Enquanto as mãos Dele rasgavam aquela ferida já coagulada me vi sendo desmontada e desnuda completamente em Sua Presença. Mas havia dentro de mim tanta frieza e insensibilidade que nem me lembro se senti algum tipo de dor. Aquela dor de alguma forma me fazia sentir algo além daquilo que não vinha sentindo nos últimos dias. O sangramento demonstrou a minha necessidade de cura no meu interior. A minha mente é Tua obra prima e enquanto me vejo sendo trabalhada como barro em Tuas mãos também me vejo necessitando de Ti como Pai.
Eu te entrego tudo. Mesmo que eu não tenha nada além da vida e do coração que o Senhor mesmo me entregou através daquele sacrifício na cruz. Eu te entrego um coração que é tão egoísta e frio e também te entrego um futuro incerto…eu te entrego os meus medos, os meus fracassos, as minhas falhas, as minhas bagunças, os meus erros. Eu te entrego tudo. Me perdoe por te entregar tão pouco. Eu também te entrego as minhas amargas lágrimas. Quero jogar tudo para cima e me esquecer de que algum dia eu já vivi para algo além de Ti, mas o que tenho em minhas mãos parece tão mais valioso do que tudo o que já tive aqui. Nesse inverno eu te entrego tudo aquilo que considero nada. Te entrego os meus dois peixinhos e os meus cinco pães. Obrigada por ver além do que eu posso ver.
