Enquanto caminho pela vinha, mal me dou conta de que o seu bom cheiro exalado pelo tempo certo do florescer das flores, demonstra agora a beleza que há muito esteve escondida, mas que permanecia sendo cultivada.
O meu coração esteve adormecido, ou apenas protegido. Como se não fosse capaz de sentir ou não pudesse ser roubado por ilusões passageiras. Sendo, pois, guardado para aquilo que era puro e verdadeiro, assim como belo quando despertado no tempo de florescer.
A medida que avançava, o tempo tentou se redimir em suas mais variadas formas. Em alguns momentos, fez-se mais extrovertido, em outros mais introvertido. Nos dias em que se devia abraçar, também podiam ser dias de chorar. Naqueles dias em que eram dias de juntar, também podiam ser dias de sorrir. Como diria o sábio, há um tempo adequado e devido para tudo debaixo do sol.
Nada daquilo que acontecia no enredar do tempo me desistimulava a ver a minha amada vinha em flor. Pouco a pouco a cada passo me desvinculei da ideia contemplativa que há no tempo e me distrai com a ideia de que o processo abortado pelo imediatismo poderia, enfim me fazer colher flores belas por fora, mas ainda assim plastificadas por dentro. Achei que essas podiam ser uma boa substituição para o escapismo de viver um árduo processo , lento como o tempo que não chega para quem “espera” – ou só está parado deixando de viver.
Na distração anestésica me movo devagar e dou dois passos para trás no processo de cultivo daquilo que cresce embaixo da terra. Ali, também tem o que chamarei de raposas e raposinhas que passam de forma sorrateira correndo por entre os caules da plantação tentando roubar tudo o que têm vida ali. De modo que quando contemplo novamente de longe a minha plantação vejo que ela parece muito mais longe do crescimento do que já pareceu. Me dispo de esperança.
Quando percebi e observei de perto os movimentos traiçoeiros das distrações entendi que o modo preferido delas de satisfazer o seu apetite era asfixiando a minha esperança de colheita. Enxerguei também uma possibilidade. Talvez elas quisessem fazer com que me movesse em direção, não só a restauração daquilo que foi perdido, mas também daquilo que ainda não havia florescido para que elas os roubassem outra vez. Certamente, elas não queriam me privar daquilo que nunca havia existido, elas só queriam me parar para que nunca pudesse ver o fruto do meu cultivo. Há o risco de distração naquilo que ainda resta, mas escolho com empenho estar atenta àquilo que pode vir daquilo que ainda não foi tocado pela ansiedade da distração.
Enquanto coloco as minhas mãos novamente nos restos do que sobrou da plantação. Tenho a ajuda de um Bom Jardineiro que tem mãos habilidosas para o caos. Para aqueles solos que parecem sem jeito ou salvação. Contando com a ajuda dele sinto como se em meu rosto batesse um novo frescor da esperança que retorna ao meu peito. O sol quente toca o meu rosto e enxergo vida além do horizonte. Embora ao meu redor, ela pareça tão silenciosa e bem escondida. O jardineiro me dá um conselho: – confie no processo, sem medo. Viva-o intensamente. E verá que passará sem que perceba. Persevere e continue. Tenha fé.
Agora contemplo essa linda plantação cheia de vida e diferentes cores, depois de tantos longos dias de incerteza daquilo que não era visto. E confesso, agora que vejo parece tão mais fácil acreditar. No entanto, enquanto não via, insisti em ver com os olhos de fé, e por isso, persisti, continuei. Vejo o fruto do meu esforço, então, e me alegro grandemente. Valeu à pena não desistir.
Ps: Vê-se no texto os parágrafos divididos de forma lineares desordenadas e há uma explicação ilógica para isso. A cada nova linha há uma nova percepção de quem fala. Há mais e mais a ser dito, do que foi anteriormente.
